Bibliotecária do Amor: Aquela caminhada, nossos passos ao nada
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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Aquela caminhada, nossos passos ao nada

Ao abrir o guarda-roupa e viu o cabide vazio. Nesse cabide havia um casaco tempos atrás. Voltou a fechar o guarda-roupa, fechou seus olhos e encostou a testa na porta. Lembrou-se de quando usou aquele casaco pela última vez. O dia estava frio mesmo ensolarado. O ar estava gelado, mas naquele momento não tinha percebido isso. Na rua seus passos eram acompanhados , passos em sintonia. Passos no mesmo ritmo. Os sorrisos eram correspondidos, estavam numa neblina única que isolava aquele momento do restante da humanidade.
Não tinha como ver através da neblina, por instantes o mundo estava separado e distante. Não havia nada, exceto os passos, os sorrisos e as palavras que fluiam. Palavras que ninguém mais seria capaz de entender, pois naquele momento o mundo estava fora do compasso daqueles passos. Não havia caminho sendo percorrido, somente passos sendo dados.
Voltou a abrir os olhos, por um momento a nostalgia tomou conta. Lembrou-se daquela caminhada, não havia destino nem futuro nela. Essa certeza tirou a nostalgia para trazer outra dor conhecida.
Sentiu o ar faltar. Puxou o ar com força, fazendo seu corpo funcionar. A vida tinha se tornado isso: olhar um cabide vazio, um quarto vazio, uma cama e uma vida vazia. E lembrar dos passos que antes acompanhavam a vida, passos que terminavam ao encontrar a cama, passos que percorriam o quarto.
Voltou a fechar os olhos, voltou a lembrar daquela caminhada. Sentiu a mão tomando a sua, a força delicada que envolviam as mãos, nesse instante o compassou se tornou uma marcha perfeita, cada movimento integrado, sem saber onde terminava e começava.
O compasso tinha se perdido, a caminhada teve um fim, mas nunca um objetivo. A vida tinha se tornado como aquela caminhada. Tinha perdido o compasso e sentido. Abriu os olhos e foi em direção a cama, deitou-se e se deixou afogar no momento. Todos os passos dados não tinham levado a lugar nenhum. Só havia o caminho percorrido e a sua frente o nada. Não tinha conseguido chegar em lugar nenhum.
Queria poder voltar atrás, caminhar novamente por todos os lugares idos. Fechava os olhos para se perder no labirinto das lembranças. Muitas lembranças doces como aqueles passos. Eram lembranças suaves como o ritmo dos passos. Outras lembranças eram como a corrida que tinha antecedido os passos. Correu para chegar naquela praça e para daquele encontro fazer uma caminhada. Não gostava de correr mas para poder anteceder cinco minutos tinha corrido, perdido o ar e também parte do foco.
Deixou que os momentos tivesem em si o foco, a direção e a meta da vida. Disso resultou só um emaranhado de momentos que não podiam mais se repetir. Aquele cabide nunca mais sustentaria aquele casaco. Os passos nunca mais teriam seu ritmo próprio. Os caminhos agora eram diferentes e não se cruzariam mais.
Teve que se esforçar para respirar. Levantou e abriu o guarda-roupa. Viu o cabide vazio, mas o ignorou, não podia se prender todo o tempo as lembranças. Ignorou a mensagem que o cabide passava. Pegou um casaco qualquer e o vestiu. Saiu para caminhar, novamente não havia rumo, ponto de chegada ou objetivo.
Os passos não eram acompanhados e se perdiam no ritmo da cidade. Mas tinha ainda que fugir dos passos que acompanhavam na lembrança. Concentrou-se em seus passos solitários. Ouviu a batida, sentiu o ritmo de si. Um novo compasso tinha chegado. Queria esquecer, lembrar, morrer, viver. Não entendia o novo compasso. Só entendia que queria gritar: Eu vivo você!